Eu me mordo de ciúmes
31/12/1969

Por Iracema Vieira / Revista Fuscia
É natural e saudável ter medo de perder a pessoa amada, porém o exagero está ligado à insegurança e não ao amor. Se uma pessoa não confia em si mesma, imagina que qualquer outra pode tomar o seu lugar.
Tudo parecia sob controle. Eles namoravam por mais de três anos, eram companheiros, apaixonados, se divertiam juntos. Mas, como ele era um cara do tipo que toda mulher deve querer para si, ela tinha que observá-lo meio de perto. Ligava sempre, queria saber aonde ia, com quem andava – afinal, os apaixonados não têm que saber tudo um do outro? E, se ele não atendesse, fazia plantão na porta da casa do rapaz. Achava tudo isso perfeitamente normal para uma mulher que tinha um namorado do cacife do dela.
Até que um dia, ela implicou com a natação. Não suportava a ideia de que outras mulheres olhassem para ele de sunga. “Percebi então que estava privando meu companheiro de realizar atividades comuns”, conta a veterinária Renata Ferraz, que hoje, oito anos depois, tem 29 anos e se considera uma “ciumenta reformada”. “Para mudar, fiz um curso de autoconhecimento, freqüentei meditações budistas, foquei mais em mim. Quando nos valorizamos, é normal que a insegurança e o ciúme desapareçam ou diminuam muito”, revela.
RECUPERAR A AUTOESTIMA É A SAÍDA
Para superar o ciúme, não é obrigatório se tornar budista como Renata. Primeiro, é preciso entender que ele chega disfarçado de amor extremo quando, na verdade, é o seu pior inimigo. “É natural e saudável ter medo de perder a pessoa amada, porém o exagero está ligado à insegurança e não ao amor. Se uma pessoa não confia em si mesma, imagina que qualquer outra pode tomar o seu lugar”, explica Maria Claudia Lordello, psicóloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O que a pessoa ciumenta esquece no momento da crise é que se apaixonou pelo outro justamente por ele ser do jeito que é. Quanto mais se controla e se transforma a pessoa amada, mais distante ela ficará da pessoa que a encantou no começo. “Às vezes, nós confundimos invasão extrema com cumplicidade, como se isso fosse um sinal de relação saudável. Não é. No fundo, todos precisamos de autonomia para sermos felizes e mais interessantes”, diz a especialista.
AJUDA COLETIVA
O ciúme, às vezes, pode se tornar um vício. Por isso, há 17 anos foi fundado o MADA (Mulheres que Amam Demais), um grupo de ciumentas em busca de cura que funciona nos moldes do Alcoólicos Anônimos. Ali, as mulheres podem falar abertamente sobre a compulsão. “O tratamento baseado em espelhos. Ou seja, a ‘ciumenta’ percebe o quão prejudiciais são suas atitudes observando histórias similares contadas pelas companheiras”, descreve Margarida Dias, colaboradora da entidade. O MADA está presente em quase todos os Estados brasileiros, além de Portugal e Venezuela. É possível encoontrar o grupo mais perto de você no site HTTP://www.grupomada.com.br
Mas nem toda ciumenta precisa de ajuda especializada. Na maioria dos casos, uma autoavaliação e algumas atitudes simples podem resolver o problema, como foi o caso de Renata. Infelizmente, ela não conseguiu salvar aquele namoro, já corroído pelo ciúme. Contudo, hoje está com outra pessoa, em um relacionamento saudável de verdade.
Mesmo depois de vencer a batalha contra o ciúme doentio, a tentação pode voltar a bater na porta. A razão irá embora e um aperto vai dominar o coração. Nessas horas vale, lembrar a frase do sociólogo Zygmunt Bauman, autor de Amor Líquido (editora Zahar): “Quando a insegurança sobe a bordo, perde-se a confiança, a ponderação e a estabilidade da navegação. À deriva, a frágil balsa do relacionamento oscila entre as duas rochas nas quais muitas parcerias esbarram: a submissão e o poder absolutos, destruindo a própria autonomia e sufocando a do parceiro. Chocar-se contra uma dessas rochas afundaria até mesmo uma boa embarcação com tripulação qualificada – o que dizer de uma balsa com um marinheiro inexperiente?” E, no amor, ele poderia ter completado, somos todos – e sempre seremos – o marinheiro inexperiente.
PARA VENCER O CIÚME
A psicóloga Maria Cláudia Lordello dá dicas valiosas para você virar o jogo e viver em paz com o seu amor.
Se você liga o tempo todo – “Normalmente, que se preocupa demais com o que o outro está fazendo não tem coisas agradáveis que preencham a vida. Procure fazer atividades interessantes. Assim, ele poderá até estar se divertindo sem você, mas você também estará”, aconselha.
Se você admite que ele tenha amigas – Alimente sua autoestima. “Achar que toda mulher oferece risco é sinal de insegurança extrema. E, se você acredita que não dá para ter amigos do sexo oposto, aceite que ele possa pensar diferente.”
Se você faz barraco em lugar público – Vale o conselho: não aja sob fortes emoções. Vá para casa, durma e resolva o problema depois. Assim, tomará uma atitude com mais sabedoria.
Se você não sai do Facebook dele – “A rede social é um espaço público e ele tem direito a uma vida além de você. Não pode lidar com essa ideia? Evite olhar a página dele”, recomenda a especialista. Outra dica é que os dois procurem ter mais privacidade na rede social, se for um acordo do casal, claro.
Se você bisbilhota as coisas dele (celular, e-mail e correspondência) – “Para a desconfiança, o diálogo é sempre a melhor opção. Exponha os medos e, na maioria dos casos, verá que está exagerando. Senhas de e-mail e coisas do tipo estão fora do seu limite. Um pouco de segredo faz bem a toda relação”, opina Maria Claudia.
Se você não tolera o passado dele – Tenha em mente que cada pessoa que passou na vida dele ajudou a transformá-lo na pessoa que você tanto ama. Logo, o passado vira algo bom, em vez de torturante.Compartilhe!





